A fantasia e o fantasma
- GC

- 30 de jun.
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Pensar a questão do fantasma e da fantasia dentro da Psicanálise tem sido um desafio. Quando me deparo com a frase “a fantasia é a única janela para o Real”, na aula do professor Alexandre Starnino, e depois leio no Seminário 14 de Lacan o trecho abaixo citado, penso sobre quantas possibilidades há nesse trajeto do fantasiar e do “carregar” os fantasmas que emolduram nosso desejo. Através desta resenha, tento, portanto, discorrer sobre estes termos a fim de que, sobretudo, possa servir como elaboração de conceitos que ainda são nebulosos em minha trajetória na Psicanálise.
“Quando, no quarto ano de meu seminário, tratei de A relação de objeto, já, concernente ao objeto a, tudo é dito quanto à estrutura da relação do pequeno a com o Outro, de fato especialmente, e suficientemente esboçada na indicação que é do imaginário da mãe que vai depender a estrutura subjetiva da criança.” (LACAN, 2008, p. 15)
Penso que, para tanto, seja importante conceituar aqui o que compreendo de Lacan quando fala do objeto pequeno a, se referindo a este termo como àquilo que é causa do nosso desejo, a falta que põe o desejo em movimento. Quando nós, seres humanos, entramos no campo da linguagem, segundo o viés psicanalítico, passamos a ganhar um sentido enquanto sujeito, quando até então, sem a linguagem, isso não existia, éramos apenas corpo em gozo pleno. A partir da aquisição da linguagem e dos nossos primeiros contatos com a aquisição dela, seremos então um ser cindido, com a existência de uma divisão subjetiva. É nesse momento que deixamos de ser um gozo pleno e passamos a apreender o mundo como um sujeito com sentido. Essa divisão nos causa senão uma falta estrutural inconsciente, um antes e depois, que carregamos para o resto de nossas vidas, essa falta, esse resquício de lembrança, uma sensação de resto, um pedaço perdido do que éramos, que Lacan vai chamar de objeto a. O objeto a vai ser para nós não exatamente aquilo que a pessoa deseja (ter ou ser), mas aquilo que a faz continuar desejando e existindo; é um resto estrutural que falta, mas que está para a ordem do plenamente inalcançável, é um ponto ilusório de completude que escapa. E será baseado nesse ponto ilusório que nossas relações se darão e como iremos nos guiar diante do nosso desejo e diante do desejo do Outro.
Quando retomamos o trecho “é do imaginário da mãe que vai depender a estrutura subjetiva da criança” trazemos em questão de onde aparece, inicialmente, o objeto a em nossa trajetória: dentro da relação da criança com aquele que a antecede simbolicamente, ou seja, o Outro, e este Outro podendo ser a mãe, a linguagem, o campo do desejo do outro, o lugar de onde o sujeito recebe sentido, o Outro como campo dos discursos. Se o objeto a é um resto produzido na relação com o Outro, a criança tenta responder inconscientemente à pergunta: “o que o Outro quer de mim?”. Ela percebe que é objeto do desejo da mãe (ou qualquer Outro). Nessa relação, uma parte dela fica marcada como aquilo que pode satisfazer o desejo do Outro. No trecho citado, Lacan diz que a forma como a mãe percebe a criança importa profundamente. A criança pode ser para a mãe um complemento, uma falta preenchida, um ideal, um problema, um objeto precioso (LACAN, 1995) e isso influencia como a criança vai constituir-se como sujeito: ela se organiza psiquicamente a partir do lugar que ocupa no desejo materno.
Sendo assim, o objeto a nasce porque a criança entra no desejo do Outro por meio da linguagem, e tenta ocupar esse lugar dentro dele. Assim, o Outro deseja, a criança tenta entender esse desejo, algo sobra dessa operação, um resto torna-se objeto causa do desejo. O objeto a vai ser aquilo que a criança acredita ser para o desejo da mãe e isso participa da formação desse sujeito.
Adicionalmente, podemos nos perguntar qual a relação do objeto a com a castração simbólica e com a falta (do gozo pleno)? E respondermos ainda com Lacan que o sujeito, quando entra na linguagem e deixa de existir como experiência imediata, passa a ser representado por significantes e torna-se inserido no desejo do Outro, perdendo algo da satisfação plena inicial - que chamaremos de castração simbólica da perda - e se inserindo na impossibilidade estrutural de ser completo. Entrando na linguagem e ganhando sentido na divisão subjetiva, o ser nomeado (filho, menino, boa criança, ser desejado etc) já não coincide consigo mesmo: a linguagem organiza o sujeito - quando as palavras e os significantes passam a nos organizar - mas algo lhe escapa, algo fica perdido e que não pode ser recuperado diretamente: o sujeito humano será constituído pela linguagem mas nunca totalmente capturado por ela.
O objeto a, portanto, está ligado à falta primordial e essa falta nasce porque o sujeito nunca pode coincidir consigo mesmo, não pode retomar a completude imaginada, não pode preencher o vazio totalmente. Por isso, o desejo humano gira em torno de algo da ordem do impossível, o que faz com que o imaginário e o simbólico entre, o tempo todo, nos nossos registros de mundo, com a fantasia e o fantasma caminhando juntos nisso.
“O sujeito do inconsciente não é uma pessoa, nem a imagem que a pessoa tem de si mesma, trata-se de um assunto inconscientizado. O sujeito é suposto, ficção. Podemos tomar a metonímia, que Lacan usou tanto para desejo quanto para o objeto a, e aplicar ao sujeito. Pensando que a fala tem um desfile nessa banda de Möebius, o fantasma vai enquadrando a fala e o pensamento, é na fala que vai aparecer a fantasia e o fantasma.” (BENITES; D’AGORD, 2024, p. 8)
Para Freud, a fantasia é um roteiro psíquico inconsciente ligado ao desejo (FREUD, 2015), quando ela atua também como princípio de prazer mesmo quando a realidade impõe limites, preservando a realização de desejos que a realidade frustra: ela pode ser uma encenação psíquica, uma satisfação substitutiva, uma realização fantasiosa de desejo. Em “O poeta e o fantasiar (1908)” (FREUD, 2015), Freud vai dizer que a fantasia organiza o psiquismo em torno desse desejo. Enquanto que em Lacan, o fantasma (fantôme) é justamente a forma pela qual o sujeito organiza sua relação com o objeto a (objeto causa do desejo).
“Eidelsztein (2022) propõe que o fantasma tem uma função muito maior na teoria e na clínica de Lacan do que a fantasia inconsciente teve como apoio à clínica das neuroses para Freud. (...) Nesse movimento, o achado a ser destacado, “a posição do espectador fora da cena”, na fantasia em Freud, se situa no campo da imaginação e pertence à consciência, enquanto o matema do fantasma de Lacan supõe a estrutura lógica do enquadre ao pouco de realidade que os humanos podem acessar, pois habitam a linguagem.” (BENITES; D’AGORD, 2024, p. 19)
Uma vez que em Freud a fantasia é uma encenação psíquica inconsciente ligada ao desejo, em Lacan o fantasma mostra como o sujeito se posiciona diante da questão da falta (daquele sujeito cindido, um sujeito antes e um sujeito depois da entrada na linguagem). Porém, o que vai convergir nesses dois conceitos, ao meu ver, será que, uma vez que esse eterno sentimento de falta é angustiante para nós, nosso psiquismo constrói maneiras, cenas inconscientes, para lidar e dar forma a isso: essa manobra, essa cena, é o fantasma, uma narrativa inconsciente que tenta responder: “qual é meu lugar no desejo do Outro?”.
Se antes perguntamos “o que o Outro quer de mim?”, permeados inconscientemente de fantasias e criações simbólicas do que isso pode representar e responder a cada um de nós, em Lacan, atualizando Freud, passaremos a nos perguntar “qual é meu lugar no desejo do Outro?”; e notamos aqui um deslocamento de um sujeito passivo para um sujeito ativo psiquicamente, uma vez que o desejo é deslocado para si mesmo, para rever qual lugar este sujeito deseja ocupar dentro do desejo do Outro.
A fantasia e o fantasma, pensando no ser humano inscrito nos quatro registros de Lacan (Real, Simbólico, Imaginário e Sinthoma), podem e devem caminhar juntos na realidade psíquica de cada um, pois ora ocupamos lugar passivo dentro do desejo do Outro, ora ativo, já que não é possível também haver um lugar absoluto a se ocupar dentro dos relacionamento humanos nem na linguagem, a falta dessa possibilidade absoluta também nos dirige o olhar (e uma convivência) de alguém que sabe se deslocar psicologicamente lidando com um não-todo.
REFERÊNCIAS
BENITES, L. S. S.; D’AGORD, M. R. L. Freud, Lacan e Musil: a fantasia e a janela do fantasma. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, São Paulo, v. 27, e230860, 2024. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rlpf/a/jv7JF6tpQJDQxxWRgKDc9Fc/. Acesso em: 24 abr. 2026.
FREUD, Sigmund. O Poeta e o Fantasiar (1908). In: Arte, literatura e os artistas. Tradução de Ernani Chaves. Belo Horizonte: Autêntica, 2015. p. 36-45.
STARNINO, Alexandre. Introdução aos três registros RSI. Portal ESPE. Disponível em: https://app.institutoespe.com.br/curso/4701/introducao-aos-tres-registros-rsi2137416294/1267f756-3464-4312-bbc4-1b3072300ed9. Acesso em: 20/3/2026.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 4: a relação de objeto. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de Dulce Duque Estrada. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.
LACAN, J. O Seminário Livro 14: A lógica do fantasma. Centro de Estudos Freudianos do Recife - Seminário 1966-67, 2008.




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