O Sinthoma como forma de gozo
- GC

- 4 de mai.
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“O Sinthoma, como escrita de gozo, é inanalisável.”
Doris Rinaldi
Partindo do Seminário 23 de Lacan, do qual ele se debruça a nos teorizar sobre o Sinthoma, usando como exemplo a escrita penetrada pela lalangue de James Joyce, e alguns outros textos de base teórica sobre isso, como o texto “Joyce e Lacan: algumas notas sobre escrita e psicanálise”, de Doris Rinaldi, gostaria de discorrer nesta resenha a ligação que enxergo existir entre gozo e Sinthoma e sobre como o ato de escrever, fazer literatura e/ou criar narrativas outras, pode funcionar como marcadores de experiência desse gozo e desse Sinthoma.
A arte de Joyce para Lacan fascina por ser um “ponto de embaraço” (RINALDI, p. 3), que vai de encontro com o Real dos quatro registros (o Real, o Simbólico, o Imaginário e o Sinthoma), onde o sintoma deixa de ser condição de metáfora significante e se torna o Sinthoma de Lacan, unindo “letra e gozo” (RINALDI, p. 3) e tornando único e artístico seu modo de apreender e elaborar sua realidade psíquica; sua linguagem se compõe e decompõe, é atravessada por neologismos, imagens em que personagens e cenários são uma mesma coisa, o sentido se inicia e logo se perde, se desfaz, a compreensão escapa e o que resta para nós leitores é apenas um “pressentimento do gozo de quem escreveu” aquilo (RINALDI, p. 4).
“Joyce evidencia o que Lacan chama de Sinthoma, não mais como algo que produz equívocos que mobilizariam o inconsciente de qualquer um, mas como sintoma puro elevado à potência de gozo da linguagem, o que supõe um savoir-faire diante do qual não há nenhuma possibilidade de análise.” (RINALDI, 2006, p. 4)
Se podemos dizer que nossa fala está carregada de significação, comportada pelo uso da palavra num encadeamento de sentido, e a escrita poética estaria dispensada da ordem da compreensão, significaria dizer aqui que a escrita pode servir como discurso do não-todo, onde o Feminino da Psicanálise acontece?
Na fórmula da sexuação, a posição sexuada diz respeito à posição simbólica que o sujeito assume em relação à linguagem, ao desejo, à função fálica; são modos de se relacionar com o inconsciente e com o desejo.
Para Doris Rinaldi,
"Tal interesse remonta às formulações sobre o traço unário, a partir do einziger Zug formulado por Freud na teoria da identificação, que Lacan retoma dando-lhe um caráter estrutural, como a cifra mais simples, marca primeira de surgimento do sujeito. Esta marca inscreve uma diferença a partir da qual o sujeito pode se contar. Como letra, ao mesmo tempo que representa o sujeito no seu nascedouro, possibilitando uma identificação simbólica traz a memória de um gozo perdido, que inaugura o processo de repetição característico do movimento inconsciente na busca do objeto. Há, portanto, uma escrita primordial que marca o sujeito na sua singularidade, onde se articulam letra e gozo. O sujeito “só inventa” o significante a partir de “alguma coisa que já está lá para ser lida – o traço”. (RINALDI, 2006, p. 6)
Podemos dizer em outras palavras que a primeira inscrição pela qual o sujeito se identifica a um significante do Outro faz uma marca diferencial que permite ao sujeito se contar como Um, inaugurando a identificação; mas em Joyce, “alguma coisa já está lá para ser lida” porque este sujeito não cria o significante do nada, ele se reconhece numa marca que veio do Outro (no discurso dos pais, no olhar do Outro, nas repetições de gozo), e então ele inventa algo com isso. O traço unário representa o sujeito ao mesmo tempo que indica uma perda de gozo; então ele se repete nas escolhas, nos sintomas, nas posições que giram em torno desse traço. Em Joyce, isso se repete pela escrita, pelo trabalho obsessivo com a letra, com um estilo enigmático: tudo isso funciona como uma forma de tratar o gozo e produzir um traço de existência.
Quando pensamos sobre a possibilidade da escrita poética se apresentar como “manejo” do Sinthoma pelo discurso narrativo, a literatura, e também quando pensamos sobre a escrita do não-todo, do Feminino ali inscrito, podemos dizer que o registro da experiência através da narrativa poética pode atuar como uma experiência de linguagem vivenciada pelo corpo e que escapa à palavra, que desobedece à castração, que não é domesticável: há algo ali que se manifesta como uma alteridade, uma experiência de gozo, uma satisfação não capturável pelo significante, mas sim pelo gesto da escrita, do corpo dando forma a um discurso que não pretende se encerrar por si mesmo, mas sim causar uma abertura, des-ser (désêtre) (LACAN, 1985, p. 162-165), de não fechamento identitário, que não se fecha numa lógica de completude.
Resumindo, poderia se dizer que Joyce é marcado por um significante do Outro (o traço unitário), que o faz existir como Um e o implicar numa perda de gozo; a partir daí, então, surge nele a repetição, o desejo, seu Sinthoma, usando da escrita um modo de funcionamento de traço suplementar que o estabiliza como sujeito.
Outro exemplo que podemos pensar a respeito do Sinthoma como um quarto registro através da narrativa poética, é sobre o processo do artista brasileiro Moacir Soares de Faria - o Môa, da Chapada dos Veadeiros, em que o simbólico e o imaginário são elaborados em forma de narrativas visuais que nos causam uma abertura, um der-ser na lógica da completude e do sentido. Embora vale dizer que, em James Joyce, o Sinthoma é transformado pela escrita num não desencadeamento de uma psicose, enquanto que em Môa parece já haver um tipo de psicose desencadeada - entendida pela natureza de relatos de alucinações ditas por ele, mas que se organiza no mundo através da materialização destes discursos visuais. Ambos, cada um à sua maneira, me parece ser uma grande lição para a Psicanálise sobre exemplos de amarração dos nós borromeanos de Lacan, a forma como cada sujeito encontrou para se manter organizado psiquicamente, ainda que não faça qualquer sentido para o outro.
Maria Rita Kehl, em seu vídeo sobre a Clínica das Depressões no ESPECast, formula um pensamento de que o ato de narrar é o que faz a experiência existir; a constituição da experiência é justamente no ato de narrar, mas ela não é total nem transparente, ela falha, e pode ser completamente incompreendida: a narrativa não fecha sentido, ela abre. Considero que criar narrativas seja uma forma de manejo do Sinthoma, um marcador de experiência do gozo e do Sinthoma, e Joyce e Môa são bons exemplos desse argumento, sem deixar de pensar que cada um com seu Sinthoma faz um modo particular de gozo na amarração dos nós, eles se sustentam como sujeitos numa solução extremamente singular.
Nas frases a seguir podemos ver que o significante nao tem significado e a letra opera como gozo: “riocorrente, além de Eva e Adão, do desvio da margem à curva da baía…” (JOYCE,p.17),“Bababadalgharaghtakamminarronnkonnbronntonnerronntuonnthunntrovarrhounawnskawntoohoohoordenenthurnuk!” (JOYCE, p. 23) e “Quem dói língua bacalhau, um espaço de tolices mudas?” (JOYCE, p.120), a escrita aqui não comunica, ela opera como amarração do sujeito, é pura aglutinação, fluxo sonoro, encadeamento associativo, estranhamento.
Abaixo algumas imagens das obras de Moacir, que trazem elementos visuais de uma narrativa imaginativa, dissociativa, linhas que não representam, mas se inscrevem. Seu traço atua como uma escrita que convoca corpo e gozo, funcionando como dispositivo singular de experiência subjetiva, onde o vivido se faz experiência através das cores, formas, força do traço e como sujeito se sustenta em sua singularidade.



REFERÊNCIAS
LUJÁN, Cecília Marina. Moacir Arte Bruta. YouTube, 17 de julho de 2014. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=SxCZJFzoFS4. Acesso em: 18 fev. 2026.
CERRADO GALERIA. Moacir – Chapada dos Veadeiros. Disponível em:
https://cerradogaleria.art/artistas/obras-moacir-chapada-dos-veadeiros/. Acesso em: 18 fev. 2026.
JOYCE, James. Finnegans Wake. Tradução de Donaldo Schüler. São Paulo: Ateliê Editorial, 1999.
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 23: O Sinthoma (1975-1976). Rio de Janeiro: Zahar, 2007.
RINALDI, Doris. Joyce e Lacan: algumas notas sobre escrita e psicanálise. Pulsional Revista de Psicanálise, ano XIX, n. 188, p. 74-81, dez. 2006.
KEHL, Maria Rita. A clínica das depressões. Vídeo-aula. Curso on-line Especast, [s.l.], [s.d.]. Disponível em:




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