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A sublimação como organização do desejo

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    GC
  • 10 de dez. de 2025
  • 9 min de leitura

Acredito que para falarmos sobre Sublimação pelo ponto de vista da Psicanálise é preciso voltar nosso olhar para outras áreas das Humanidades e compreender o que significaria, para cada uma, o aspecto de Sublime. Sabemos que a partir de Freud (2021), a Sublimação se caracterizaria como a energia libidinal sendo canalizada para fins socialmente mais altos, como a atividade intelectual, artística ou moral:

“Conhecemos um processo de desenvolvimento muito mais adequado, chamado sublimação, em que a energia dos impulsos infantis não é bloqueada, mas continua aproveitável, dando-se aos impulsos uma meta mais elevada, eventualmente não mais sexual, no lugar daquela inutilizável.” (FREUD, vol. 5, p. 214) 

Sabemos que a definição de sublime é pensada e experienciada em outros campos, como na Filosofia, na Arte e na Literatura e é olhando para os conceitos de sublime e sublimação que pretendo articular o pensamento de como orientamos nosso desejo, enquanto sujeitos da Psicanálise, para outros propósitos (ou objetos) que não na realização da meta sexual enquanto desejo sexual do corpo. 

Na Arte, Edmund Burke (1757) diferenciou o belo (ligado à harmonia e à suavidade das artes visuais) do sublime àquilo que causa grandeza, vastidão, escuridão e outras emoções intensas; para Burke, o sublime é mais visceral e pode provocar uma sensação de “prazer negativo” — o deleite que sentimos diante de algo perigoso que, no entanto, não nos ameaça diretamente. A obra “O caminhante sobre o mar de névoa”, de Friedrich, nos exemplifica e põe em contraste estes termos estéticos e quase podemos encontrar uma metalinguagem visual com a criação de Burke: o sujeito aqui se coloca diante do deslumbramento ao abismo, à ameaça, ao perigo.   


Friedrich (1774-1840), pintura O caminhante sobre o mar de névoa (1818)
Friedrich (1774-1840), pintura O caminhante sobre o mar de névoa (1818)

Para os Românticos, na Literatura, o sublime torna-se objeto central: a natureza é representada como poderosa, indomável, e o ser humano aparece como pequeno diante dela — mas também engrandecido por reconhecê-la e senti-la, algo que também podemos depreender da pintura de Friedrich. Para o filósofo Kant, o sublime está ligado à experiência de algo que excede a capacidade da imaginação de compreender plenamente — o "absoluto", o "infinito". 

Aqui então começamos a refletir como o ato de sublimar, conceituado por Freud, vai de encontro com as demais áreas humanas: dominar o desejo, domar os impulsos (sexuais), levaria nossa psique, então, a criar algo da ordem do absoluto, do incompreensível, do espantoso, uma vez que a libido é direcionada para fins intelectuais e artísticos? 

A não realização do ato sexual deixaria no sujeito uma energia que seria reinvestida a criações artísticas e intelectuais mas, ao passo que racionalizamos sobre o significado destas investidas intelectuais como sendo algo da ordem do sublime, é necessário levar-se em conta uma outra questão: como concretizamos o desejo físico (sentido no corpo no ato sexual) em objetos do mundo (o mundo além da psique)? É possível se realizar libidinalmente pela realização psíquica? Parece que para Freud e Lacan na Psicanálise sim; nossa formação psíquica passaria por uma plasticidade para se (re)adaptar ao que o corpo sentiria através da realização matérica das obras intelectuais: onde antes o Outro, como sujeito de desejo, era alvo de realização de uma meta sexual, agora o Outro se transforma nas realizações sociais através da Literatura, das Artes Plásticas, do Cinema, da Dança etc. 

Para a psicanalista Sissi Vigil Castiel (2020), isso equivaleria a transformar a relação com o outro através da alteridade, mantendo relações mediadas pelo símbolo e pela palavra, modificando a idealização pela sublimação (algo inalcançável supostamente) ao desamarrar-se do narcisismo a partir da castração e, por fim, interiorizando-se na ausência do objeto primário como simbolização, acontecendo, assim, o processo sublimatório:

Entendo que a positividade do processo sublimatório e função na clínica encontram-se relacionadas a ideia de um psiquismo funcionando em um nível simbólico e de abstração, capaz de uma transformação pulsional: diante da impossibilidade de satisfação do desejo, criar alternativas não diretamente sexuais, mas sem abrir mão de uma posição desejante. (...) como, ao longo do tempo, a sexualidade infantil, não pode ser satisfeita sempre, sofre destinos. (...) Dessa forma, a sexualidade só terá uma satisfação diretamente corporal novamente a partir da puberdade. Até lá, isto se dará de forma simbólica, afastando-se da dimensão corporal o que constitui a sublimação como um destino posterior ao recalque; caracteriza-se por ser uma realização pulsional simbólica e alternativa que contém uma transformação da meta e do objeto. Entendo que é por essa razão que Freud utiliza esta palavra, no sentido da evaporação, da passagem do sólido ao gasoso. O que se sublima são as pulsões parciais de ver, de exibir-se, de maltratar e de ser maltratado. Desde outro ponto de vista, existe uma relação entre a formação dos ideais e afastamento do narcisismo o que, na minha opinião, se aproxima da sublimação. É dentro do contexto da metapsicologia de 1915, que Freud aborda a questão da formação dos ideais como o substituto do narcisismo perdido da infância na qual o sujeito era seu próprio ideal. Dentro desse contexto, a idealização diz respeito ao aferramento ao objeto que equilibraria o narcisismo do sujeito, por ela, ele é engrandecido e exaltado. Enquanto que a sublimação relaciona-se a libido objetal, ou seja, consiste no fato da libido poder se dirigir a outros objetos, a partir de uma finalidade diferente e afastada da sexualidade. O lugar vazio do objeto torna-se fonte de novas oportunidades de laços objetais, promovendo uma separação entre o objeto e o si mesmo, entre o lugar simbólico que ele ocupava e o ego, de forma que este se torna capaz de consentir a perda que o fim dos laços com o objeto causa. É a partir do retorno da libido investida nos objetos ao ego que inicia o processo sublimatório, portanto, há um investimento libidinal no eu. Ele transforma-se em objeto para substituir o objeto perdido ou para fazer-se amar em seu lugar. Trata-se de um trabalho de luto objetal bem sucedido composto de dois momentos: o eu se coloca como objeto na linha de substituição da perda para mais tarde encontrar outros objetivos e objetos. O ego media o processo colocando um tempo intermediário. Esta é a diferença entre sublimação e identificação, nesta última o objeto perdido instala-se no ego e este se apropria de alguns de seus traços. Já na primeira, trata-se de uma substituição objetal. (CASTIEL, p. 80-81, 2020)

Em outras palavras, seria o equivalente a dizer que quando o desejo (energia libidinal) - que estava voltado para fora (aos objetos externos) - retorna ao sujeito, este desejo pode se transformar em algo novo e criativo — esse é o início da sublimação; isso implica um novo investimento de energia no próprio eu, que passa a ser fonte de ação e elaboração simbólica. 

Para o filósofo Schopenhauer, o princípio fundamental da vida é a Vontade: um impulso cego, irracional e incessante que nos move. Porém, essa “vontade” nunca se satisfaz plenamente: ao alcançarmos um desejo, logo surge outro. A vida, portanto, oscila entre Desejo insatisfeito (sofrimento) e Desejo satisfeito (tédio, vazio). Ou seja, querer, ter vontade de, é sofrer. Quando o desejo é direcionado a um ideal fixo, distante, absoluto (por exemplo, "quando eu tiver sucesso", "quando eu for amado", "quando eu atingir a perfeição"), criamos uma imagem inalcançável ou instável que nos frustra constantemente, nos distancia do presente e nos condena à infelicidade, pois a realização completa nunca é atingida. Desta forma, Schopenhauer sugere que, para reduzir o sofrimento, o foco do desejo se desloca do ideal (resultado final) para o processo em si. Isso implica em viver o presente com mais aceitação, encontrar prazer no ato, e não na conquista, não esperar libertação do sofrimento no futuro ou na realização total, mas deixar-se envolver por atividades que suspendam a vontade, como a arte, a contemplação estética. Assim, quando estamos totalmente absorvidos na contemplação de uma música, pintura ou paisagem, a Vontade (o desejo) se suspende temporariamente: e é nesse momento que não desejamos nada, apenas somos, e essa suspensão do querer é um alívio do sofrimento.

Se um novo investimento de energia se volta ao eu, sublimando o objeto de desejo para o ego, significaria dizer também que a Vontade, para Schopenhauer, e a Libido, para Freud, poderia ser atribuída ao desenvolvimento de atividades que visem um processo de prazer diante do sublime, um processo de identificação com esse objeto de gozo (objeto a), elevando o objeto à dignidade da Coisa (das Ding). A sublimação, então aqui, seria uma forma de o sujeito dar contorno ao seu desejo ao redor da Coisa, sem tentar tomá-la diretamente; a sublimação não realiza o gozo diretamente, mas permite uma forma de lidar com ele quando esse objeto de gozo perdido (objeto a) é elevado simbolicamente, revestido de valor estético, ético ou espiritual e que, por fim, permite que o sujeito se aproxime do gozo sem cair nele, criando algo a partir da falta, por exemplo, uma obra de arte, um gesto ético, uma teoria - e se deslocando, sobretudo, do ideal, mas tornando o desejo organizado ao processo em si da sublimação.

Dar contorno ao furo da estrutura do desejo, elevando o objeto a à dignidade da Coisa, seria possível dizer também que são manejos psíquicos que encontramos para lidar com o Real (de Lacan), uma vez que interiorizar a falta, a angústia, o excesso pulsional, simbolizando-os dentro de si e materializando-os para fins socialmente mais altos, seria sobretudo dar forma ao objeto de gozo com menos sofrimento psíquico e mais realização libidinal; experienciar o sublime através da experiência do corpo com algo que excede a capacidade da imaginação de compreender plenamente, viver o "absoluto", o "infinito", deslocando a Vontade e o desejo libidinal à realização intelectual, artística, moral. 

Abaixo seguem alguns exemplos na Arte onde isso acontece como tema e que nos faz refletir visualmente sobre as possibilidade da sublimação enquanto matéria no mundo psíquico e mundo exterior:


Estudo do retrato do Papa Inocente X (1953), pintura a óleo de Francis Bacon (1909-1992)
Estudo do retrato do Papa Inocente X (1953), pintura a óleo de Francis Bacon (1909-1992)

Retrato de Papa Inocêncio X (1650), pintura a óleo de Diego Velázquez (1599-1660)
Retrato de Papa Inocêncio X (1650), pintura a óleo de Diego Velázquez (1599-1660)
Imagem da cena do filme Asas do Desejo (1987), de Wim Wenders (1945) | A poesia como dobra da falta para Rainer Maria Rilke, que trata a figura do anjo (o anjo rilkeano), o túmulo, o silêncio como são objetos sublimes, restos de objeto a, elevados à “dignidade da Coisa” lacaniana. Em obras como os Sonetos a Orfeu e Elegias de Duíno, Rilke trata da perda, da morte e do invisível. Ele escreve sob a presença daquilo que falta e retorna como ausência insuportável: o invisível que pesa: “Beleza é o começo do terror que ainda conseguimos suportar.” (Primeira Elegia de Duíno, p. 21, 2008). Rilke transforma a experiência limite com o indizível em poesia — não para nomear o Real, mas para contorná-lo liricamente, criando formas sutis e simbólicas para algo que é essencialmente impossível de simbolizar.
Imagem da cena do filme Asas do Desejo (1987), de Wim Wenders (1945) | A poesia como dobra da falta para Rainer Maria Rilke, que trata a figura do anjo (o anjo rilkeano), o túmulo, o silêncio como são objetos sublimes, restos de objeto a, elevados à “dignidade da Coisa” lacaniana. Em obras como os Sonetos a Orfeu e Elegias de Duíno, Rilke trata da perda, da morte e do invisível. Ele escreve sob a presença daquilo que falta e retorna como ausência insuportável: o invisível que pesa: “Beleza é o começo do terror que ainda conseguimos suportar.” (Primeira Elegia de Duíno, p. 21, 2008). Rilke transforma a experiência limite com o indizível em poesia — não para nomear o Real, mas para contorná-lo liricamente, criando formas sutis e simbólicas para algo que é essencialmente impossível de simbolizar.

Os Sete Pecados Capitais: canto de balé, coreografia de Pina Bausch, texto de Bertolt Brecht | A dança-teatro de Pina Bausch expõe o corpo marcado pela repetição, pelo automatismo, pela falha, pelo descompasso entre o que se sente e o que se pode expressar; há um prazer estranho e inquietante nos gestos repetidos até a exaustão. A pulsão se inscreve no corpo não como fluidez, mas como trauma e repetição – um corpo que não se entende com a linguagem, mas que insiste. Esses gestos são organizados coreograficamente — não para “libertar” o corpo, mas para estruturá-lo simbolicamente, fazer dele um meio de expressão daquilo que não se diz, só se dança; é uma forma de sublimar o impossível de dizer. A repetição gestual, o corpo esgotado, o olhar que se dirige ao público como súplica — tudo isso aponta para a presença do objeto a no campo do Outro, deslocado e reencenado artisticamente.
Os Sete Pecados Capitais: canto de balé, coreografia de Pina Bausch, texto de Bertolt Brecht | A dança-teatro de Pina Bausch expõe o corpo marcado pela repetição, pelo automatismo, pela falha, pelo descompasso entre o que se sente e o que se pode expressar; há um prazer estranho e inquietante nos gestos repetidos até a exaustão. A pulsão se inscreve no corpo não como fluidez, mas como trauma e repetição – um corpo que não se entende com a linguagem, mas que insiste. Esses gestos são organizados coreograficamente — não para “libertar” o corpo, mas para estruturá-lo simbolicamente, fazer dele um meio de expressão daquilo que não se diz, só se dança; é uma forma de sublimar o impossível de dizer. A repetição gestual, o corpo esgotado, o olhar que se dirige ao público como súplica — tudo isso aponta para a presença do objeto a no campo do Outro, deslocado e reencenado artisticamente.

REFERÊNCIAS


BACON, Francis. Figura 2: Estudo do retrato do Papa Inocente X (1953). Disponível em:


BAUSCH, Pina. Figura 5: Os sete pecados capitais: canto de balé. Texto de Bertolt Brecht; coreografia de Pina Bausch. Intérprete: Tanztheater Wuppertal. Alemanha, 2001. 1 vídeo (52 min.), son., color.  

Disponível em: https://www.pina-bausch.de/en/plays/17/the-seven-deadly-sins . Acesso em: jun. 2025.


CASTIEL, Sissi Vigil. Sublimação: um destino possível?, no II Simpósio Bienal SBPSP, Fronteiras da Psicanálise: a clínica em movimento, no dia 22 de agosto de 2020. Disponível em: https://www.proceedings.blucher.com.br/article-details/34933. Acesso em Maio, 2025.  


FRIEDRICH, Caspar David. Figura 1: O caminhante sobre o mar de névoa, 1818. Óleo sobre tela, 98,4 × 74,8 cm. Kunsthalle Hamburg, Hamburgo.


FREUD, S. Metapsicologia. Trad. Paulo César de Souza, obras completas, vol. 14, 1a edição, São Paulo: Companhia das Letras, 2010.


_________. História de uma neurose infantil (“O homem dos lobos”), além do princípio do prazer e outros textos (1917-1920). Tradução Paulo César de Souza, obras completas, vol. 14, São Paulo: Companhia das Letras, 2010.


_________. Psicopatologia da vida cotidiana; Sobre os sonhos. Tradução de Paulo César de Souza, obras completas, vol. 5, 1a edição, São Paulo: Companhia das Letras, 2010. 


LACAN, Jacques. O seminário, livro 7: A ética da psicanálise (1959–1960). Tradução: Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1988.


______________. O seminário, livro 10: A angústia (1962–1963). Tradução: Paulo César de Souza. São Paulo: Autêntica, 2019.


RILKE, Rainer Maria. Elegias de Duíno / Sonetos a Orfeu. Tradução de Paulo Quintela. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. 454 p. (Poemas). “Primeira elegia”, p. 21.


VELÁZQUEZ, Diego. Figura 3: Retrato de Papa Inocêncio X (1650). Disponível em:


WENDERS, Wim. Figura 4: Asas do Desejo. Direção: Wim Wenders. Roteiro: Wim Wenders; Peter Handke. Alemanha: Road Movies Filmproduktion, 1987. 1 filme (128 min), son., color. Drama. 

Esse texto foi escrito em Junho de 2025, uma resenha crítica elaborada para a pós-graduação em Psicanálise, Arte e Literatura, no Instituto ESPE, Módulo 3 - O Trágico e a Criação Artística.

 
 
 

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