O Feminino e a Feminilidade e onde mora o desejo
- GC

- 5 de abr.
- 6 min de leitura
Seguindo os seminários de Lacan, podemos depreender que o Feminino e o Masculino não são identidades de gêneros, nem sexo biológico dentro do discurso da Psicanálise, mas sim uma posição (lógica) sexuada, que significa ocupar uma posição simbólica em relação à linguagem, ao desejo e à função fálica. Significa dizer também que “homem” e “mulher” são posições no discurso, modos de se situar diante do gozo, do desejo e da castração simbólica, são modos que o sujeito encontra de se relacionar com o inconsciente e com o desejo, não essências.
Quando se fala de ocupar uma posição simbólica dentro da posição sexuada, se fala em ocupar um lado masculino e um lado feminino na fórmula da sexuação elaborada por Lacan: no lado masculino, “Todo sujeito está submetido à função fálica” (LACAN, 1985, p. 107), isto é, o gozo masculino é regido pela castração, pela lei do falo; no lado feminino, “Não-todo sujeito está submetido à função fálica” (LACAN, 1985, p. 99), o gozo feminino é “não-todo” regido por essa lei, há algo que escapa à função fálica, um gozo outro, além do falo. Todo sujeito pode se inscrever em ambas posições na fórmula da sexuação, todo ser falante é afetado pelo gozo fálico, sendo homem ou mulher, não existe alguém fora do gozo fálico, ele é universal; mas nem todo sujeito está limitado apenas ao gozo fálico (e aqui está o lado feminino).
O falo, para Lacan, é o significante do desejo e da falta. A falta como algo estrutural, constitutivo do sujeito, e o desejo como aquilo que nasce dessa falta. O falo como significante funciona, então, como aquilo que marca a falta e, ao mesmo tempo, orienta o desejo. Portanto, a posição sexuada do sujeito depende de como ele se inscreve na lógica do falo: a posição masculina se estrutura em torno do falo como medida universal do gozo; a posição feminina se relaciona com o falo, mas também com algo além dele — um gozo suplementar, inominável, que Lacan chama de “gozo Outro” — gozo feminino ou gozo do corpo, um gozo que não passa completamente pelo significante.
Em “Além do princípio do prazer” de Freud (1920), temos que cada sujeito busca evitar o desprazer psíquico e manter o sujeito num equilíbrio. Em Lacan, o que rompe esse equilíbrio é chamado de gozo. É uma satisfação paradoxal que inclui dor, excesso, empurra o sujeito para além do que seria “bom”. O “gozo Outro”, em Lacan, é o tipo de gozo que não deriva do falo, não é representável pelo significante, é um gozo “do corpo”, e que as mulheres “estão mais próximas” dele — mas não exclusivamente.
Falar de Feminino na Psicanálise é falar disso que escapa à linguagem: há algo experienciado no corpo de cada um que foge às palavras, que não obedece à castração, que não é domesticável; há algo que se manifesta como uma alteridade, é essa a experiência do “não-todo” de Lacan, algo que escapa é o Feminino. Essa experiência de gozo, que se experimenta e que não pode ser circunscrita com as palavras, ela acontece no corpo, é uma experiência de satisfação, “um acontecimento de corpo” (LACAN, 1985, p.100). Desta forma, é possível também associar o Feminino, da Psicanálise, com o Real dos três registros de Lacan (o Real, o Simbólico e o Imaginário), quando pensamos que o Real é tudo aquilo que está fora do campo das palavras e o gozo Feminino é justamente uma experiência de encontro com o Real.
Já, quando falamos de Feminilidade, falamos de uma posição, didaticamente associada entre o Imaginário e o Simbólico dos nós borromeanos, o nome que empreendemos dessa posição não-totalizável da fórmula da sexuação; a Feminilidade tem ligação com o “gozo Outro”, que não é fálico, não é todo representável, não é capturável pelo significante, é experiencial, corporal, ilimitado, místico, uma relação singular com a falta, pois ela não busca “ser toda” para o Outro, mas sim uma posição de abertura, de des-ser (désêtre) (LACAN, 1985, p. 162-165), de não fechamento identitário. Seria o equivalente a dizer que a Feminilidade, para Lacan, é a posição do sujeito que se inscreve no não-todo da função fálica, mantendo relação com o gozo suplementar e com uma forma de falta que não se fecha numa lógica de completude.
Assim sendo, como acontece o desejo no Feminino? Como esse desejo está bordeado pela Feminilidade?
Acredito que podemos pensar a respeito do desejo no Feminino que não funciona da mesma forma que o desejo organizado pela lógica fálica — aquele desejo orientado pela falta representável, que depende do falo como significante do desejo, que busca um objeto que “complete” — uma vez que a completude é impossível, é não-toda, não se organiza pela castração e pelo ideal de limite; o desejo no Feminino não é totalmente alinhado ao regime da significação, ele não se deixa reduzir ao “o que você quer?”; o desejo no feminino toca um ponto de impossível, um ponto que não se simboliza, e é justamente isso que o bordeia. Não é um desejo “de Outro tipo”, mas um desejo que toca uma zona não tão regulada pela castração, é mais aberto à alteridade, é menos ligado ao ideal, e mais ligado ao corpo e ao enigma do Outro. Isso faz com que o desejo possa se apoiar no furo, no semi-dizer, no que falta ao Outro, na abertura ao impossível. Não é o desejo de completude, mas desejo que toca um ponto de não-saber, bordeado de uma Feminilidade ligada à ideia do “mistério”, que se sustenta pelo gozo suplementar, pelo enigma e pelo impossível do Outro.
Vejamos nas Artes Visuais como podemos “materializar” os conceitos de Lacan através de obras de artistas que tentaram traduzir esse Feminino e essa Feminilidade por meio da expressividade artística:
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Figuras 1, 2, 3 e 4 são obras da série Femme Maison de Louise Bourgeois (1911-2010), fotografias do arquivo pessoal O Feminino lacaniano aparece aqui nesse enigma do corpo, que não se totaliza: a mulher é corpo, mas também é casa, e que pode ser nenhuma destas duas coisas. A figura aparece imparcial, incompleta, fazendo um furo na significação. | |
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Figuras 1 a 7 - obras da artista Francesca Woodman (1958-1981) Fotógrafa nascida nos Estados Unidos, Francesca Woodman ficou famosa por seus retratos em preto e branco, especialmente seus autorretratos, nos quais trabalhou a nudez, o desfoque, movimentos e uso de longa exposição da fotografia, mesclando a imagem capturada com o ambiente. Na maior parte de suas representações de si, Francesca aparece como uma figura oculta ou fantasmagórica em locais desde interiores confinados, que parecem abandonados, a locais externos expansivos, sempre com o uso de objetos que possuem presença mais forte do que sua própria imagem. Francesca era depressiva e também obcecada em retratar sua própria imagem combinando gestos de aparecer e desaparecer nas fotografias, trazendo nudez explícita e seu rosto escondido. A artista mostrava muito de si mantendo um mistério; ao longo dos seus 22 anos Francesca esteve interessada nos limites da representatividade a partir da necessidade de trabalhar um corpo recortado, infinitamente escondido e nunca completamente capturado. Ela posicionou o eu como muito ilimitado para ser contido e, portanto, revela identidade singular como uma noção elusiva e fragmentada. O Feminino aparece aqui num corpo que não se fixa na imagem. Ela está sempre desfocada, em movimento, parcial, borrada. Um corpo feminino que “escapa” ao imaginário do todo. A Feminilidade se manifesta como falta de fixação. A imagem não consegue capturar o gozo do corpo: ele excede. |
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Figuras 1 a 3 - Podemos dizer que o Feminino na obra de Joan aparece nos corpos, que são ao mesmo tempo presença e ausência, um si e um outro híbridos. Joan cria personagens que são semi-figuras, semi-vozes, semi-corpos. A Feminilidade aqui é o “entre”: nem toda, nem plena. Não há um consistente, há multiplicidade sem totalidade. |
REFERÊNCIAS
WOODMAN, Francesca. Sem título, 1975–1978. Fotografias em gelatina e prata. Disponível em: https://www.phillips.com/artist/4066/francesca-woodman
FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer. Obras completas, v. 14. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 161–239.
JONAS, Joan. Imagens da performance Mirror Piece I & II, realizada em 1969 e, depois, no MoMA, em Nova Iorque, em Junho de 2024.
Disponível em: https://www.moma.org/calendar/events/9420?
BOURGEOIS, Louise. Femme Maison, 1947-1984. Fotografia do arquivo pessoal, 2023, Galeria Belvedere, Áustria.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 20: Mais, ainda. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
Esse texto foi escrito em Novembro de 2025, uma resenha crítica elaborada para a pós-graduação em Psicanálise, Arte e Literatura, no Instituto ESPE, Módulo 4 - O Desejo e sua Interpretação.


















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