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a travessia do desejo a partir do eu-outro

  • Foto do escritor: GC
    GC
  • 9 de dez. de 2025
  • 7 min de leitura

Partindo do desejo de Freud em se debruçar sobre as manifestações do sujeito - manifestações comportamentais, linguísticas, conscientes e inconscientes - o mundo ganhou, através da Psicanálise, o poder da compreensão da capacidade da mente humana em apreender a complexidade do que é estar vivo: nascer, elaborar um eu-indivíduo, assimilar a existência do outro também como indivíduo e, então, dar conta da trajetória nas “travessias dos desejos”. O corpo e a mente caminham juntos e, estes, por sua vez, seguem inseridos num corpo social, cerceado por seu tempo, espaço, cultura, política e história. Foi a partir de uma insatisfação de Freud (seu desejo que revelou a falta de algo) com as limitações da Medicina de sua época para explicar o funcionamento do aparelho psíquico humano, que passamos a ter acesso à compreensão de que um sujeito é dividido entre sujeito consciente e sujeito inconsciente e que a experiência deste sujeito em cada uma destas partes se dá de modo diferente e, por consequência, nos aponta para diversas formas individuais de atravessamento dos desejos.  

Os primeiros contatos do indivíduo com o mundo externo traz a ele representações desse mundo e uma quantidade de afetos que influem neste indivíduo. A representação é uma espécie de característica da linguagem que demarca no aparelho psíquico uma forma para as ideias do mundo; o afeto é da ordem da intensidade que se liga às representações, ou seja, quando se relaciona uma ideia a algo somos afetados: sofremos tensão, ternura, disposição, raiva etc, manifestações subjetivas a este sujeito. Ao ser afetado desta forma pelo mundo e se ligar às representações ao seu redor é necessário lidar internamente com o despertar de um desejo por estas representações e afetos e, por fim, com sentimentos e emoções que isso lhe traz. A lei social, a organização de mundo externo ao sujeito, implica nele ordenações de aprovação ou reprovação do que se pode ser feito com este desejo despertado e o que não se pode (e aqui teremos o desenvolvimento da ideia de repressão). A ordem interna deste sujeito, ou seja, sua ordenação pessoal ou sua forma de lidar com a intensidade dos afetos, os estímulos de mundo recebido e a repressão que chega a si vão direcionar o desejo dentro do aparelho psíquico: se para o inconsciente, chamaremos esse “desejo realocado” de recalque e que, por sua vez, gerará sintomas neuróticos na medida que o sujeito não avança em conseguir trazer à consciência os motivos ou sintomas de seus desejos (o sujeito fica em desacordo com seu desejo). 

Assim sendo, o Homem é fruto do desejo e o desejo lhe revela algo sobre o que lhe falta: ele é inconsciente, se realiza através dos sonhos, ou se torna combustível do sujeito na contínua busca pelo preenchimento do que lhe falta (não necessariamente consciente do que é e a Psicanálise pode nos auxiliar justamente a descobrir estas motivações do desejo e direcionar nossa disposição/pulsão para sua realização ou entendimento). 

O que desejamos é o que nos tornamos e o que recalcamos atua sobre a representação desse desejo e não no quanto ele nos afeta. O objetivo do inconsciente é a realização do desejo e este vai constantemente pressionar o aparelho psíquico para essa realização. É importante tornar-se consciente dos desejos (ou parte deles), pois à medida que se traz para a consciência a representação recalcada deste desejo que está deslocado para o inconsciente, manejamos de forma funcional (e consciente) as realizações e/ou suas elaborações ao longo da vida. 

O destino das representações recalcadas é se ligar a outras representações, fazendo associações múltiplas até que se retorne à consciência. O destino da quantidade de afeto dentro do sujeito poderá 1) se dissociar da representação e, uma vez livre, essa afetação se transforma em angústia; 2) se vincular a outra representação, assumindo uma nova “forma”, uma nova “cor” para aquela representação; ou 3) se inibir, ou seja, impedir que ela se realize, impedir que se torne um afeto. O início da vida psíquica de um sujeito se dá a partir do momento em que há ação de um outro semelhante a este sujeito e há quantidade de afeto vinculada às primeiras representações deste outro; assim sendo, a origem da organização da cadeia psíquica diz respeito à força da presença de um outro na experiência humana. 

Para isso, o poeta Arthur Rimbaud diria “eu é um outro”, na carta ao seu professor de retórica Georges Izambard, em 1871, e René Magritte parece nos trazer em imagem uma etapa do que essa frase poderia representar:


Not to be reproduced, 1937, René Magritte, óleo sobre tela
Not to be reproduced, 1937, René Magritte, óleo sobre tela
"Se Descartes (1999) pressupunha o eu como fundado exclusivamente pelo pensar a constituir o ser, o eu que Rimbaud postula não se funda no pensamento, mas na relação com um outro. Outro eu, perguntaríamos? Se a proposição do poeta postula que eu é um outro, este outro seria outro eu? Ou seja: a sentença fundaria seu alicerce na noção de que o eu que parece me constituir é também a mesma instância que constitui todos os outros eus que não sou eu? Se eu penso que sou eu, tal premissa parece constituir todas as formulações dos outros eus que se pensam como tal. Ou seja: cada um como um único e exclusivo eu, quando essa mesma ideia se repete em um jogo de espelhos infinito que reflete unicamente a face de cada eu que se pensa como único. Essa proliferação de eus, no entanto, parece se fundar na ideia de que o outro, que também se pensa como um eu, não seja um eu, mas um outro. Entretanto, este outro parece ser também um eu. Assim, a relação infernal entre eu e os outros, na concepção sartriana, aqui fundar-se-ia na constatação de que há somente um eu a se pensar a si mesmo como centro do seu pensar? Tal exclusividade da centralidade do eu como constituinte do sujeito exclui do seu âmbito a ideia de que o outro também seja um eu, pois o eu não se pensa como um outro para o outro, mas apenas como eu para si próprio. Teríamos, dessa forma, apenas um eu que ignora o outro também como eu. Assim, o que o poeta parece querer postular é que qualquer eu é um outro eu para si próprio." (José Carlos Pinheiro Prioste, em "No enveredamento das sertanias, Crítica Literária Contemporânea, 2013).

Se pensarmos que a constituição do eu-sujeito parte da imagem, ação, linguagem, existência etc de um outro-eu-sujeito e, tendo como demonstração a citação de Rimbaud, Magritte e o trecho acima, “qualquer eu é” de fato (constituído por) “um outro eu para si próprio”; somos, assim, então, parte do que desejamos e parte elaborada do desejo do outro que chega até nós e que interpretamos para nós. Conhecer as demandas de si, cada vez mais trazendo-as para a consciência, parece ser um caminho para atravessar e distinguir a formulação que esse outro tem de “espaço ocupado” dentro da gente: 


“(...) nascemos com esse outro ocupando quase que completamente a gente, até que em algum momento o sujeito vai subjetivar esse desejo dos pais em nome próprio. Ser o objeto de desejo que o outro quer em um dado momento se cessa, existe em parte uma identificação e em parte uma nova descoberta dos próprios desejos” (SESARINO, 2024).

À medida que nos aprofundamos nesta busca de entendimento dos próprios desejos, compreendemos também e respeitamos melhor como caminham os desejos do outro, como num espelho que olhamos a si vendo o outro (Magritte). Procurar perceber quem nos tornamos (e quem ainda poderemos nos tornar quantas vezes desejar) é também se propor perceber as possibilidades de representações, simbologias e imaginário de um eu-outro que se faz chegar para si e, continuamente, fazer ser possível que esse eu-desejante descubra novas e infinitas combinações de existências através desse relacionamento consigo mesmo e da relação com o outro. 

Lacan dizia que “os afetos são um verdadeiro toque do real”. Afetar e ser afetado traz ao sujeito uma comunicação com aquilo que está para além da ordem do simbólico e do imaginário, com aquilo que está para o impossível na linguagem. A realidade de cada sujeito é uma “manobra” da condição psíquica desse sujeito para lidar com o real: fantasiando o tempo todo através das histórias, das tramas diárias, do brincar, da interpretação sobre a existência do outro, das simbologias do mundo que chegam para si diariamente. A aproximação com o real ou, diria, que a falta de fantasia, leva o sujeito a ter acesso a sentimentos e emoções que não necessariamente ele saberia lidar, como a angústia, a cólera etc; a intensidade e a dimensão destes afetos seriam, desta forma, como um “verdadeiro toque do real” (STARNINO, PEREZ, OLIVEIRA, 2023, p. 16): a realidade é possível se formar na psique por meio de imagens e palavras (a linguagem), enquanto que o real não está na possibilidade de representação, portanto, angustiante para o sujeito (daí nosso desejo da fantasia).  

Assim, se o que recalcamos atua, no inconsciente, sobre a representação desse desejo não realizado ou não elaborado, “libertar o desejo alienado em formas imaginárias, nas repetições da demanda e contido na fantasia fundamental é o fito de uma análise.” (TAFFAREL, 2019). O que nos faz pensar que atividades que envolvam expressão e criação, como a Arte e a Literatura por exemplo, podem contribuir para trazer o desejo não articulado à existência, podem ser “espaços” para acolhimento, sublimação, elaboração e realização dos próprios desejos e fantasias, possibilidades de travessias dos desejos desse eu-sujeito em contato com o mundo, com o outro, formas encontradas para dar destino e concretização à pulsão de vida que Freud nos fala, lidar com o “toque do real”, uma vez que estar envolto pelos próprios desejos também é estar sendo afetado por ele, consciente ou inconscientemente falando.


REFERÊNCIAS


CHAVES, Ernani. Prefácio: o paradigma estético de Freud. In: Arte, literatura e os artistas. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.


FREUD, Sigmund. O Poeta e o Fantasiar. In: Arte, literatura e os artistas. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.


PRIOSTE, José Carlos Pinheiro. Eu é um outro (Je est un autre), Revista Z Cultural, Revista do Programa Avançado de Cultura Contemporânea. Disponível em:  http://revistazcultural.pacc.ufrj.br/wp-content/uploads/2016/04/EU-%C3%89-UM-OUTRO-Je-est-un-autre-%E2%80%93-Revista-Z-Cultural.pdf 


RIMBAUD, Arthur. Carta a Georges Izambard, Charleville, 13 de maio de 1871. Disponível em: https://www.scielo.br/j/alea/a/JnFxf3R6P9pGVtRKnrtCcQH/?lang=pt# 


SESARINO, Jorge. Desejo, Gozo e Psicanálise. ESPECAST, 14 de março de 2024. Disponível em: https://app.especast.com.br/app/busca?q=desejo 

Esse texto foi escrito em Julho de 2024, uma resenha crítica elaborada para a pós-graduação em Psicanálise, Arte e Literatura, no Instituto ESPE, Módulo Inicial - Introdução à relação entre psicanálise, arte e literatura.

 
 
 

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