top of page

o desejo de se reinventar, se eternizar ou se organizar psiquicamente através das memórias e dos registros

  • Foto do escritor: GC
    GC
  • 10 de dez. de 2025
  • 10 min de leitura

Pensando em compreender o desenvolvimento das sociedades e como isso se revela no comportamento social e cultural, o ser humano, por muitos séculos, colocou sua existência, de modo geral, submissa àquilo que tomamos como místico, daquilo que está para a ordem do religioso, do simbolismo do ritual e do oculto, confirmando sua busca em atender a necessidade emocional da existência de uma figura zeladora, um cuidador da humanidade, um “pai”. Esse pensamento e forma de existir, que é também uma forma de lidar com o Real, moldou o Homem durante a Antiguidade grega, romana e durante a expansão do cristianismo no mundo. A partir da Era Moderna, com o avanço da ciência, do acesso ao conhecimento e da tecnologia, o indivíduo passa a se ver dotado de racionalidade e independência a essas místicas, um sujeito autônomo. O que sente, como se comporta e como ganha consciência de mundo, passa a ser prioridade no entendimento humano e o eu-sujeito passa a se responsabilizar pelos seus atos, pensamentos e atitudes sem se apropriar, para isso, do místico, do oculto: entramos, assim, no Antropocentrismo, filosofia que coloca o homem como indivíduo central para o entendimento social. E para entender o mundo a partir do eu, é preciso também se aprofundar no conhecimento do indivíduo, seus sentimentos, emoções, suas inscrições na realidade, como ele forma seu pensamento através do que lhe chega, do que lhe afeta, do que lhe atravessa psiquicamente, como dá vazão para cada pulsão interna e externa a si.  

Em 1915, Freud desenvolve uma série de estudos em clínica sobre como se dá a formação da Memória, sobre a qual tentarei discorrer nesta resenha, a fim de organizar e compreender a necessidade do eu-sujeito em se eternizar na realidade através das inscrições de si por meio dessa Memória, utilizando-se para isso também do Simbólico, do Imaginário, da sua relação com o Real e do Sinthoma: um desejo de cravar a identidade, de permanente registro de si, reinventando a própria história e a perspectiva da trajetória experienciada.

Analisando o texto “O Inconsciente” do autor (FREUD, 2006), as pulsões que se inscrevem na psique do eu-sujeito são tidas como representantes dos estímulos que lhe chegam e a Memória seria, portanto, o registro das excitações caracterizado por traços mnêmicos - que nada mais são que rastros de registros de percepções - que se relacionam ao longo da vida com nosso inconsciente de forma dinâmica e num processo de constante reinscrição e reinterpretação subjetiva (FREUD, 2010):

“(...) Tanto as excitações internas quanto os estímulos externos são passíveis de registros. Entendemos que a pulsão articula o psíquico e o interior do corpo, de forma que os representantes pulsionais constituem registros daquilo que aparece enquanto excitação proveniente do interior do organismo. Esses registros compõem o próprio núcleo do inconsciente: “O núcleo do Ics é composto de representantes pulsionais [Triebrepräsentanzen] desejosos de escoar sua carga de investimento.” (...) O traço [Spur] é sempre um rastro, uma marca que em si mesmo não retém acontecimento, lembrança. (...) Segundo Gaufey, assim como a representação é forjada por representantes, “a lembrança [Erinnerung] é forjada por traços de lembranças [Erinnerungspuren].” (FREUD, 2006:37, apud SANTOS, 2008, p. 493 )

Se a “representação é forjada por representantes e a lembrança é forjada por traços de lembranças”, podemos entender que a formação do nosso eu, do nosso aparelho psíquico e da nossa identidade está submetida à existência de estruturas que organizam e tornam nossa experiência possível e, por consequente, possíveis de serem registradas na Memória, no Inconsciente e no Pré-Consciente/Consciente; estas estruturas se dão:

1) pelo Afeto e pelas Pulsões: de acordo com a quantidade e intensidade de afetos e pulsões que se ligam à representação e que ficam submetidas em nosso inconsciente e pré-consciente/consciente; 

2) pela Representação (ou Simbólico): no modo como a linguagem demarca no aparelho psíquico uma forma de ideia, um sistema de significantes; 

3) pelo Imaginário: através da singularidade de cada um em se relacionar com determinados significantes e seus significados, com a imagem e a fantasia, com tudo aquilo que envolve o sentido e o simbólico e que são possíveis de serem representados pela linguagem; 

4) pelo Real: por meio das demarcações e limites de tudo aquilo que não tem sentido, da ordem do impossível de ser simbolizado, a eventualidade, o trauma, aquilo que nos surpreende; e, por fim, 

5) pelo Sinthoma: enquanto linguagem, a nossa resposta sintomática ao Real. 

Memória e registros da experiência coabitam nosso aparelho psíquico mas, sobretudo, de forma independente um do outro. Coabitam também nossa maneira de se manifestar no mundo, a partir das impressões captadas (e registradas em memória e no inconsciente) e as escolhas que cada sujeito faz ao querer expressar a experiência sentida. 

Será por meio, então, destas escolhas que submetemos nosso desejo de se registrar, de “se gravar no mundo”, através de “marcas” (conscientes ou inconscientes) que optamos se manifestar. Ou, então, e o que mais vejo de interessante pensar a respeito neste trabalho, são as formas que encontramos para lidar com a intrusão do Real sem mediação simbólica por meio da Suplência que Lacan nos elucida.

Para Lacan (1961-1962), existem diferentes tipos de Memória; a memória simbólica (associada à linguagem e ao encadeamento significante) e uma memória mais ligada ao Real, que se manifesta de forma traumática, como algo impossível de simbolizar completamente. E quando falamos sobre a Suplência em Lacan, estamos falando de uma solução psíquica que cada sujeito encontra para compensar certas falhas estruturais dentro dos registros da experiência (o RSI); a Suplência como uma possibilidade de reordenamento da experiência psíquica, evitando que o sujeito entre em colapso ao lidar com um furo no Simbólico.

Sumariamente, usamos a Suplência não apenas para estabilizar a subjetividade, mas também transformar a relação do sujeito com sua própria Memória, permitindo novas formas de elaboração e enodamento do que, de outra forma, poderia permanecer como um furo angustiante.

Exemplos de clássicos da Literatura e das Artes Visuais podem ilustrar o que procuro argumentar neste trabalho, quando por meio da Memória, do Real, Simbólico, Imaginário e do Sinthoma tentam estes artistas recriar a percepção de si, de sua realidade, dar materialidade ao inconsciente, se estabilizar se apropriando do gozo (no caso de uma psicose não desencadeada e à apropriação do Sinthoma como solução para sua falha estrutural), e deixar algo do seu eu-sujeito gravado no mundo através da Linguagem. Como, por exemplo, James Joyce quando diz “Quero que os universitários se ocupem de mim por trezentos anos”; ele não só desejou ser eternizado através de sua escrita, como fez do Real o seu Sinthoma e, por sua vez, fez de seu Sinthoma sua estrutura de registro como expressão literária. Sua psicose foi direcionada para a clínica do Real, trazendo o Sinthoma como apropriação do gozo para se estabilizar, dando uma finalidade que não a de um sujeito clinicamente psicótico (no caso dele, uma psicose não desencadeada). Joyce vai se utilizar da escrita para organizar os três registros (RSI) e construir um novo ego, um novo eu. O ego dele se reconstruindo pela escrita, faz com que os três nós borromeanos dos registros RSI não se desenlacem e, portanto, não se desencadeie um sujeito clinicamente psicótico: seu Sinthoma é entrelaçado ao RSI. 



Figuras extraídas do livro Seminário 23, de Lacan, sobre o uso lógico do Sinthoma (1975-1976, p. 21)
Figuras extraídas do livro Seminário 23, de Lacan, sobre o uso lógico do Sinthoma (1975-1976, p. 21)

A autobiografia e a ficção, na Literatura ou nas Artes Visuais, serão formas escolhidas para isso, para dar contorno ao Real, se organizar psiquicamente, “eternizar” o sujeito que se inscreve (por meio da autobiografia: a necessidade do registro de si), para registrar um sujeito que reformula sua história (por meio da ficção: a necessidade de recriação da realidade); inscrever um eu-sujeito que encontra na expressividade cultural, artística, formas de linguagens que possibilitam a recriação deste eu-sujeito, por meio da bagagem de seus rastros de Memória e do desejo em tornar ato a quantidade de afeto que lhe atinge, utilizando-se o tempo todo do Simbólico, do Imaginário e - porque não? - do Sinthoma para manusear as impressões de realidade e percepções de si, se sintetizar e dar uma nova forma a este eu (ainda que fantasiosa) por meio da linguagem expressa. 

Muitos escritores e artistas experienciaram ou representaram essa dissolução da fronteira entre o sujeito e a realidade e usaram da Suplência, do Sinthoma, formas de se reconstruir psiquicamente e de lidar com o Real: Roland Barthes apresentando em sua escrita um jogo de identidade e reinvenção subjetiva, Franz Kafka usando a escrita como estruturação da angústia existencial, como em “Carta ao Pai” e em “O Processo”, Fernando Pessoa criando um sistema complexo de heterônimos para lidar com seus diversos eus, Andrei Tarkovski que procura em seu cinema utilizar dos temas “tempo e matéria da imagem” como operadores de um espaço de enfrentamento do Real, onde seus filmes trabalham com as ideias do vazio, da espera, do sacrifício e da passagem do tempo de maneira integrada, Jodorowsky que transita entre o cinema, o teatro e a psicomagia, e usa o trabalho de Suplência como maneira de transformar a experiência subjetiva por meio da arte e do ritual, Simone de Beauvoir e Sartre que pensam o Existencialismo como uma Suplência filosófica para estruturar respostas ao Real da existência sobre temas que dizem respeito à angustia, à liberdade, à ausência de sentido do ser ou o desamparo existencial, a experiência feminina diante da cultura que impõe barreiras simbólicas na subjetividade das mulheres, e assim por diante.



Edvard Munch (1863-1944), pintura O Grito (1893) | O grito da angústia, da ansiedade
Edvard Munch (1863-1944), pintura O Grito (1893) | O grito da angústia, da ansiedade
Salvador Dalí (1904-1989), pintura A Persistência da Memória (1931) | A simbologia do Real como estado de derretimento
Salvador Dalí (1904-1989), pintura A Persistência da Memória (1931) | A simbologia do Real como estado de derretimento
Leonora Carrington (1917-2011), Autorretrato (1937-1938)
Leonora Carrington (1917-2011), Autorretrato (1937-1938)
Leonora Carrington (1917-2011), Creation of the Birds (1957)  | Uma ordenação do Simbólico sobre o Real excessivo por meio de figuras híbridas, metamórficas, que desafiam a lógica própria, composições próximas a um delírio ou sonho, cheias de iconografia, esoterismo, mitologia e alquimia
Leonora Carrington (1917-2011), Creation of the Birds (1957) | Uma ordenação do Simbólico sobre o Real excessivo por meio de figuras híbridas, metamórficas, que desafiam a lógica própria, composições próximas a um delírio ou sonho, cheias de iconografia, esoterismo, mitologia e alquimia
Louise Bourgeois (1911-2010), Maman (2009), com pinturas e esculturas como um espaço de reinscrição do trauma infantil 
Louise Bourgeois (1911-2010), Maman (2009), com pinturas e esculturas como um espaço de reinscrição do trauma infantil 
Francis Bacon (1909-1992), pintura Estudo para retrato em cama dobrável (1963) | A distorção da figura humana como uma borda para o Real 
Francis Bacon (1909-1992), pintura Estudo para retrato em cama dobrável (1963) | A distorção da figura humana como uma borda para o Real 
Cena de Kontakthof, no teatro Tanztheater Wuppertal (1982-1983) | O uso da Suplência através do corpo e do movimento. Na obra de Pina Bausch (1940-2009)), os corpos aparecem muitas vezes em estado de exaustão, de repetição compulsiva, de gestos que parecem fugir do controle e do consciente, que parecem surgir do inesperado, fazendo uma relação direta com aquilo que é inominável, irrepresentável, da ordem do Real, que escaparia à linguagem mas que podem ser assimilados pela dança e o teatro
Cena de Kontakthof, no teatro Tanztheater Wuppertal (1982-1983) | O uso da Suplência através do corpo e do movimento. Na obra de Pina Bausch (1940-2009)), os corpos aparecem muitas vezes em estado de exaustão, de repetição compulsiva, de gestos que parecem fugir do controle e do consciente, que parecem surgir do inesperado, fazendo uma relação direta com aquilo que é inominável, irrepresentável, da ordem do Real, que escaparia à linguagem mas que podem ser assimilados pela dança e o teatro

A partir do momento que mantemos o desejo de se inscrever em nossa realidade, seja qual for a inscrição escolhida por cada um, também temos a polaridade oposta da recepção destas inscrições, quando falamos daquele outro sujeito-eu que nos lê (como leitor, como espectador), daquele que se propõe a interpretar determinada obra (ou inscrição); e aqui, implica também, uma nova interferência de criação, que não podemos deixar de citar quando sabemos que também aquele que lê/aquele que vê estará cocriando a realidade daquele que escreveu/que criou, pois essa interpretação, por sua vez, vem carregada de seu ponto de vista, de sua bagagem de experiências vividas, de sua maneira particular de receber e inscrever os registros. Por mais que o sujeito-moderno esteja voltado para si, para a própria compreensão do funcionamento da psique, da busca e mergulho para entender a importância na forma como elabora seus registros, este sujeito não está isolado do Outro. O Outro que também vai ter seus próprios desejos de se eternizar, de se gravar de algum modo socialmente, de deixar sua marca, sua Memória, seu inconsciente materializado em linguagem expressa a respeito do que foi sua existência.

“Uma contribuição que a psicanálise freudiana pode oferecer para a compreensão dessa aparente polaridade é a admissão de que há uma tensão permanente entre os vários registros que constituem a experiência literária. Dessa tensão – dessa funcionalidade –, aspecto relativo não só à dinâmica, mas também à economia do processo de criação, pode advir tanto o prazer como o desprazer, entre outras possibilidades. Outra consideração é que, se a criação não se sustenta exclusivamente no processo secundário, tampouco existe expressão direta do inconsciente, tal como é impossível a figuração imediata de um sonho (Pontalis, 1991, p. 128). Qualquer acento em um desses registros e que desconsiderasse os outros, perderia de vista o caráter incessantemente transformativo que resulta na criação literária. E isto sem falar do que acontece na cena da leitura que, como sabemos, desorganiza de modo imprevisível e inevitável todos os elos dispostos pelo escritor em seu texto – tenham sido estes forjados para mimetizar ou apresentar processos inconscientes e suas lacunas ou, ao contrário, para retirar do texto qualquer vestígio da experiência interna daquele que o escreveu. Com sua leitura, o leitor não poderá deixar de interferir no texto com seu próprio desejo, com seus próprios fantasmas, no que, então, o texto já terá sido re-criado pelo leitor.” (CARVALHO, 2002, p. 71)

Se e nossa organização enquanto indivíduo e corpo social se dá pela Memória das experiências e nossa relação com o RSI (e cada um com seu Sinthoma), nossas formas de manifestação no mundo são carregadas, sobretudo, de significados para o eu-sujeito e o Outro, e a Suplência artística, filosófica, acadêmica etc podem auxiliar numa melhor organização psíquica e enodamento dos registros, fazendo com que o Real seja possível de ser assimilado pela maioria de nós indivíduos.


REFERÊNCIAS 

A Psicose para Lacan: Francis Juliana Fontana e Daniel Omar Perez. 2022. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=T6Lc5nVYpLY&t=563s&ab_channel=ESPEcast. Acesso em  02  fev.  2025.


BACON, Francis. Figura 6: Estudo para retrato em cama dobrável (1963). Disponível em:


BAUSCH, Pina. Figura 7: Kontakthof - Tanztheater Wuppertal (1982-1983). Disponível em: https://artsandculture.google.com/asset/kontakthof/rAHcH5apKh7Y-Q. Acesso em: 4 fev. 2025.


BOURGEOIS, Louise. Figura 5: Maman (1909). Disponível em:


BRITO, Wallace da Costa; CANAVEZ, Fernanda. A memória nos textos iniciais de Freud. Est. Inter. Psicol.,  Londrina ,  v. 7, n. 2, p. 101-122,  dez.  2016 .   Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2236-64072016000200007&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em  01  fev.  2025.


CARVALHO, Ana Cecília. O método e a criação literária: uma visão psicanalítica. Psychê, vol.VI, número 9, 2002, p. 67-74.


CARRINGTON, Leonora. Figura 3: Autorretrato (1937-1938). Coleção de Pierre e Maria-Gaetana Matisse, 2002. Disponível em:  


___________________. Figura 4: Creation of the Birds (1957). Disponível em: 


DALÍ, Salvador. Figura 2: A persistência do tempo (1910). Disponível em:


FREUD, S. Metapsicologia. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.


FREUD, S. Obras completas Volume 14 História de uma neurose infantil (“O homem dos lobos”), além do princípio do prazer e outros textos (1917-1920). Tradução Paulo César de Souza, São Paulo: Companhia das Letras, 2010.


LACAN, Jacques. O Seminário, livro 23: O Sinthoma. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.


MUNCH, Edvard. Figura 1: O Grito (1910). Disponível em: 


SANTOS, Lilian Braga dos. Sobre a memória em Freud: uma introdução. Língua, Literatura e Ensino, Vol. III, Campinas, 2008. Disponível em:

Esse texto foi escrito em Janeiro de 2025, uma resenha crítica elaborada para a pós-graduação em Psicanálise, Arte e Literatura, no Instituto ESPE, Módulo 2 - Arte e Cultura.

 
 
 

Comentários


bottom of page