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o desejo que nasce da falta

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    GC
  • 10 de dez. de 2025
  • 10 min de leitura

Foi a partir de mulheres tidas como “histéricas” que Freud pôde dar início aos estudos da Psicanálise quando, ao se unir com Charcot, pôde entender as reações físicas e doenças que se manifestavam no corpo humano e que não tinham causa ou comprovação biológico-química. Estas doenças vinham manifestadas sobretudo pelo estado psíquico destas mulheres (histéricas), uma vez que suas emoções reprimidas tornavam-se sintomas no corpo. Freud procurou compreender, assim, como os estados emocionais, as lembranças inconscientes, os traumas psíquicos podiam se corresponder, de maneira involuntária e inconsciente, no comportamento mental e doenças no corpo, como, por exemplo, as catalepsias, as convulsões, a enurese, afonias etc. 

Em “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade”, ele afirma que os primeiros anos de vida vêm carregados de libido e que o contato com essa energia vital no próprio corpo, para uma criança, é em si só um episódio traumático, uma vez que o ser humano nessa fase não está psicologicamente desenvolvido para lidar com a tensão sexual do corpo biológico. Associado a isso, está também nossa capacidade de fantasiar com o mundo, criar simbologias e representações de experiências que nosso corpo, enquanto indivíduo social, terá a partir destas tensões sexuais e sua incapacidade de dar vazão ou direcionamento saudável a estas tensões - já que ainda somos infantis para isso. No mesmo livro, Freud explica que após essas primeiras experiências sexuais no corpo e depois dos primeiros anos de vida (0-5 anos), o ser humano entra num certo “estado de latência” com a sexualidade. Posteriormente, na fase da adolescência, essa pulsão sexual retorna com intensidade e nosso aparelho psíquico, aqui mais desenvolvido, lida melhor com essa relação (tensão sexual versus corpo). A partir deste momento, vivenciamos nossas primeiras experiências sexuais, a liberação de nossos desejos que até ali estariam impossibilitados de realizações ou sem direcionamento. Esta é uma fase de extrema importância para a psique, pois “moldará” nossa maneira de se relacionar com a sexualidade (em relação ao próprio corpo e em relação ao corpo e ao desejo do outro) e nossa forma emocional de se relacionar com ela.

“(...) A pesquisa sexual desses primeiros anos infantis é sempre feita de modo solitário; ela representa um primeiro passo para a orientação independente no mundo e estabelece um considerável distanciamento da criança em relação às pessoas do seu ambiente (...) (FREUD, p. 107). Podemos ver como típico o fato de a escolha de objeto ocorrer em dois tempos, em duas ondas. A primeira tem início entre as idades de dois e cinco anos e o período de latência a interrompe ou faz regredir; distingue-se pela natureza infantil de suas metas sexuais. A segunda vem com a puberdade e determina a configuração definitiva da vida sexual. (...) Os resultados da escolha infantil de objeto se prolongam até uma época tardia; são conservados como tais ou são reavivados na época da puberdade. (...) A escolha objetal da época da puberdade tem de renunciar aos objetos infantis de começar de novo como corrente sensual”. (FREUD, p. 111)
do livro Invenção da histeria: Charcot e a iconografia fotográfica da Salpêtrière. Fotografia de Paul Regnard, “Letargia resultante da eliminação brusca da luz”, lâmina XXIII, em Bourneville e Regnard, Iconographie photographique de la Salpêtrière, Paris, Progrès Médical & Delahaye, 1879-1880
do livro Invenção da histeria: Charcot e a iconografia fotográfica da Salpêtrière. Fotografia de Paul Regnard, “Letargia resultante da eliminação brusca da luz”, lâmina XXIII, em Bourneville e Regnard, Iconographie photographique de la Salpêtrière, Paris, Progrès Médical & Delahaye, 1879-1880

Freud vai, assim, nos deixar como legado uma série de estudos de casos clínicos, como o caso Dora, A Bela Açougueira, Augustine, e diversos outros, buscando elucidar a importância do direcionamento dos desejos, a fim de que eles não sejam completamente reprimidos e, portanto, de não se tornarem sintomas no corpo físico, gerando a histeria

Ao passo que a Psicanálise avança - e avançam também as tecnologias, o comportamento social e suas relações com o conhecimento sobre a mente humana e o nível que reprimimos nossos desejos enquanto indivíduo e enquanto cultura - saberemos que, o que Freud chamou em sua época de Histeria, vai se desdobrar em várias outras atuais formas de neuroses: como a depressão, as dores crônicas como fibromialgia, síndrome do pânico, síndrome de munchausen, personalidade histriônica, transtornos dissociativos, transtornos alimentares, transtornos narcísicos, personalidade borderline etc (DUNKER). Será nesse discurso atual que passaremos a ver o “desejo histérico” então como uma possibilidade de organização do discurso que o próprio indivíduo faz de si mesmo, faz sobre sua relação com o outro e faz, sobretudo, sobre a responsabilização dos atos estarem em acordo com o próprio desejo ou a forma de lidar com esse desejo. 

“Toda vivência que suscita os penosos afetos de pavor, angústia, vergonha, dor psíquica, pode atuar como trauma psíquico; se isso de fato acontece depende, compreensivelmente, da sensibilidade da pessoa afetada” (FREUD, p. 18). O mundo externo, fora do indivíduo, traz a nós, sujeitos, representações desse mundo e uma quantidade de afetos que nos influem. A representação é uma característica da linguagem que demarca em nosso aparelho psíquico “uma forma” para as ideias do mundo; a intensidade de nossos afetos se liga às representações de mundo, causando em nós certa tensão, ternura, disposição etc, completamente subjetivas a cada sujeito. Ao sermos afetados pelo mundo que nos rodeia e ao nos ligarmos às representações que nos chegam ou que naturalmente associamos, criamos um vínculo com os sentimentos e emoções que isso nos traz e também, consequentemente, com um despertar de desejos por estas representações e afetos. 

Freud diria que “O histérico sofre sobretudo de reminiscências”, de memórias incompletas, lembranças vagas, de algo que lhe aconteceu e não se sabe (conscientemente). Estas reminiscências inconscientes serão então a chave para compreendermos o que o discurso histérico hoje pode nos trazer de interessante estudo, especialmente pensando nele dentro da Arte ou da criação de modo geral. 


Cenas do filme Nostalgia, de Andrei Tarkovski
Cenas do filme Nostalgia, de Andrei Tarkovski

Como uma mise en abyme é o discurso e o desejo histérico. Um excesso que nasce de uma falta. Um desejo repleto de reminiscências inconscientes, um desejo que não cessa. Uma necessidade na realização desse desejo, mas também um desejo contínuo pela busca, pela incessante procura em tapar aquilo que lhe falta - e que não se sabe ou não se lembra em sua maioria das vezes. Um buraco, um escuro, uma incompletude que nos move em direção à continuação do desejo existindo. 

Em Madame Bovary, de Flaubert, vemos esse discurso da impotência e o desejo que nasce da falta o tempo todo: uma personagem mulher que busca a representação da virilidade por meio das suas relações com os homens, seus amantes, e com os objetos que ela adquire quase que compulsivamente; ela coloca todos eles (as relações afetivas e os objetos) como objetos de satisfação, de felicidade e, por fim, não encontra nunca. A narrativa inteira do romance vai nos mostrar (e nos agoniar) por essa busca incessante de um outro para sanar aquilo que lhe falta

O desejo histérico teria então a ver com o encontro de algo sexual que ficou desencaixado, algo de traumático, uma perda do gozo. Freud vai nos dizer que:

“(...) uma sensação de tensão tem necessariamente o caráter de desprazer. É decisivo, para mim, o fato de tal sensação trazer consigo o impulso para a mudança da situação psíquica, de atuar de forma instigadora, o que é inteiramente alheio à natureza do prazer que se sente. Mas, se incluímos a tensão da excitação sexual entre as sensações desprazerosas, defrontamos com o fato de que indubitavelmente é sentida como prazerosa. A tensão gerada pelos processos sexuais é sempre acompanhada de prazer. (...) Como conciliar a tensão desprazerosa e a sensação de prazer? Tudo relacionado ao problema do prazer e desprazer toca num dos pontos mais delicados da psicologia atual. (...) Vejamos primeiramente como as zonas erógenas se ajustam à nova ordem. Cabe a elas um importante papel na introdução da excitação sexual. Aquela que é talvez a mais distante do objeto sexual - mais frequentemente em condições de ser estimulada pela qualidade especial de excitação ocasionada por aquilo que, no objeto sexual, denominamos beleza. Por isso os méritos do objeto sexual são designados como “encantos”. Essa estimulação, por um lado, já é ligada ao prazer, por outro, tem por consequência um incremento da excitação sexual, ou sua produção, onde ela falta. Havendo também a excitação de outra zona erógena, da mão que toca, por exemplo, o efeito é o mesmo: por um lado, sensação de prazer que logo é reforçada pelo prazer oriundo das modificações preparatórias (dos genitais), por outro lado, aumento da tensão sexual, que logo passa a nítido desprazer quando não lhe é permitido gerar mais prazer. Mais transparente talvez seja outro caso, quando, por exemplo, numa pessoa não excitada sexualmente uma zona erógena é estimulada mediante o toque, o seio de uma mulher, digamos. Esse toque já produz uma sensação prazerosa, mas simultaneamente se presta, como nenhuma outra coisa, a despertar uma excitação sexual que requer mais prazer. Como sucede que o prazer sentido provoque a necessidade de maior prazer - eis aí o problema.” (FREUD, p. 123-125)

Prazer e desprazer convivendo conjuntamente na vida psíquica do desejo e discurso histérico. Quase numa relação simbiótica dos sentimentos dentro da mesma pessoa; satisfação e insatisfação, uma infinita busca de sanar aquilo que não se sabe que lhe falta. A professora Dra. Samico, em sua aula, vai nos dizer que para Lacan “o desejo na histeria não é a realização do desejo, mas sim a manutenção do ato de desejar”. Sendo assim, o sujeito que carrega em si traços desse desejo histérico incessante vai viver sua vida numa “eterna mise en abyme da busca”, sem necessariamente se satisfazer com a realização. 

Desta forma, podemos olhar como possibilidades e implicações na arte e no discurso histérico, nesse excesso de desejo, nessa incompletude, na falta contínua, recorrente, a manifestação e expressão como forma de pulsão para criação (literária, visual etc). O sentimento da falta e o excesso de desejo poderiam, de certo modo, serem direcionados para a manifestação de criar algo com isso; uma possibilidade do “desejo por algo” ser concretizado através da criação. 

Como diz Andrei Tarkovski no livro Esculpir o Tempo: 

“A imagem artística é sempre uma metonímia em que uma coisa é substituída por outra, o menor no lugar do maior. Para referir-se ao que está vivo, o artista lança mão de algo morto; para falar do infinito, mostra o finito. Substituição… não se pode materializar o infinito, mas é possível criar dele uma ilusão: a imagem.” (TARKOVSKI, p. 41)

Parafraseando o artista, diria que não se pode materializar o desejo de desejar continuamente, sua incessante insatisfação, mas é possível criar ilusões para si da realização simbólica do que se poderia ser esse infinito desejar por meio da criação de imagens, de escrita, de dança etc. Segundo Freud em seu ensaio O Poeta e o Fantasiar (1908), apenas os insatisfeitos fantasiam. As fantasias servem como correção da realidade insatisfatória. Numa oportunidade do presente desperta-se o desejo; há a partir disso uma lembrança ou sensação de uma vivência antiga onde o desejo foi realizado ou reprimido (geralmente uma vivência infantil); cria-se então a fantasia de uma possível realização desse desejo, um ímpeto ao gozo que te move senão sobretudo para o futuro: o prazer de desejar aquilo. “(...) passado, presente e futuro se alinham como um cordão percorrido pelo desejo” (FREUD, p. 37). A criação enquanto realização concreta é uma continuação e uma substituição, a uma só vez, das fantasias infantis:

“(...) uma forte vivência atual deve despertar no poeta a lembrança de uma vivência antiga, em geral uma vivência infantil, da qual então parte o desejo que será realizado na criação literária; a própria criação literária permite que se reconheçam tanto elementos de acontecimentos recentes quanto também antigas lembranças. (...) Os senhores se recordam quando dizíamos que quem tem sonhos diurnos esconde suas fantasias cuidadosamente diante dos outros, porque sente que aí há motivos para se envergonhar. Eu acrescentaria que, mesmo que ele pudesse nos comunicar essas fantasias, não poderia nos proporcionar, por meio de tal desocultamento, nenhum prazer. Se experimentássemos essas fantasias, ou nos liivraríamos delas ou permanceríamos distantes delas. Mas, se o poeta nos apresentasse previamente suas brincadeiras ou contasse para nós aquilo que esclarecesse seus sonhos diurnos pessoais, então, sentiríamos, provavelmente a partir de diferentes fontes, um grande prazer que flui conjuntamente. Como o poeta realiza isso, eis aí o seu segredo mais íntimo; na técnica da superação desta repulsão, que certamente tem a ver com as limitações existentes entre todo o eu individual e os outros, consiste, verdadeiramente, a Ars poetica. Podemos supor dois meios para esta técnica: o poeta suaviza o caráter do sonho diurno egoísta por meio de alterações e ocultamentos, e nos espicaça por meio de um ganho de prazer puramente forma, ou seja, estético, o qual ele oferece na exposição de suas fantasias. Pode-se chamar este ganho de prazer, que nos é oferecido, para possibilitar, com ele, o nascimento de um prazer maior a partir de fontes psíquicas ricas e profundas, de um prêmio por sedução ou de um prazer preliminar. Sou da opinião de que todo prazer estético, criado pelo artista para nós, contém o caráter deste prazer preliminar e que a verdadeira fruição da obra poética surge da libertação das tensões de nossa psique. Talvez, até mesmo não contribua pouco para este êxito o fato de o poeta nos colocar na situação de, daqui em diante, gozarmos com nossas fantasias sem censura e vergonha.” (FREUD, p. 40-41)

O criador, assim, ao invocar as fantasias infantis, ao ocultar os sonhos diurnos, ao dar vazão às elucubrações imaginativas, um fantasiar a partir do desejo, os altera e depois os retoma realizando-os (concretizando o desejo) por meio do prazer formal, do prazer estético e, ali, por sua vez, coloca o expectador diante (de sua obra) do gozo com as próprias fantasias, sem censura ou vergonha e, por isso, acontece também o encantamento e a sedução, como na histeria. 

Enxergar hoje a histeria não como doença, mas como direcionamento do discurso do desejo, dentro da arte, é também poder abrir caminhos para diluição dos resquícios de experiências traumáticas e/ou tensões reprimidas que se fundam no sujeito, juntamente com sua bagagem temporal, passado e presente, reminiscências inconscientes que se mesclam [ou se (res)guardam] e ganham vida através do ato de criar. O contínuo ímpeto da conquista de uma criação alimenta a realização do desejo, ainda que haja prazer e desprazer nesta realização. A criação pode reverter a “complacência somática” num poder ativo do ato de desejar, incluindo a sensação da falta e da incompletude, a fim também de organizar o discurso e a consciência do próprio indivíduo como histérico-desejante. 


REFERÊNCIAS

DIDI-HUBERMAN, G. Invenção da histeria: Charcot e a iconografia fotográfica da Salpêtrière. Tradução Vera Ribeiro. 1a edição - Rio de Janeiro: Contraponto, 2015. 


DUNKER, Christian. O que é a histeria hoje? 11 de setembro de 2016. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=IF3iPaWr6Hk&t=291s&ab_channel=ChristianDunker  


FLAUBERT, Gustave. Madame Bovary. Tradução Janaína Perotto. 1a edição - Rio de Janeiro: Antofágica, 2022. 


FREUD, S. Obras completas Volume 2 Estudos sobre a Histeria (1893-1895) em coautoria com Josef Breuer. Tradução Laura Barreto. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.


FREUD, S. Obras completas Volume 6 Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, análise fragmentária de uma histeria “O caso Dora” e outros textos (1901-1905). Tradução Paulo César de Souza. 1a. edição - São Paulo: Companhia das Letras, 2016.


FREUD, S. Arte, literatura e os artistas. Tradução Ernani Chaves. 1a. edição – Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015.


TARKOVSKIAEI, Andrei. Esculpir o tempo. Tradução Jefferson Luiz Camargo. 2a edição - São Paulo: Martins Fontes, 1998. 


SAMICO, Fernanda. Aula “Histeria em imagens, a fotografia hospitalar das histéricas”. ESPE, 26 de julho de 2024. Disponível em:

Esse texto foi escrito em Setembro de 2024, uma resenha crítica elaborada para a pós-graduação em Psicanálise, Arte e Literatura, no Instituto ESPE, Módulo 1 - Arte e Imaginário.

 
 
 

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